segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

HISTÓRIAS DE TEREZA 13

Resolveu dar-se o presente de começar o novo ano fazendo o que mais gostava, pois se existia um remédio, este era escrever. Não que a escrita fosse um fim, uma dose de antídoto pronta contra os venenos que os homens nos empurram goela abaixo vez ou outra, mas era um meio de se reencontrar. A palavra era seu espelho e ela se olhava com olhos cansados da luta. Mas agora eu não vou descansar, ela repetia pra si. Foram muitos desafios e um árduo plantio visando o porvir. O Sol há de brilhar mais uma vez. A luz há de chegar aos corações. Do mal será queimada a semente. O amor será eterno novamente. Recitava as frases da canção feito poema e não podia parar, a canção, a luta, a vida, porque ela voltou a sonhar como quem volta do fundo do mar buscando o seu primeiro fôlego vital. Eu estou aqui e sinto de novo. Sempre teve a sensação de que as coisas pra ela aconteciam de um modo especialmente devagar e por isso ela tinha o dom da paciência - Deus sabe o que faz. Mas dessa vez tudo o que ela esperou há de acontecer em breve. A maturidade ela conquistou sozinha fazendo da sua solidão matéria-prima. A solidão é fascinante quando você escuta no silêncio tudo o que o resto do mundo não pára pra ouvir. Tem muita coisa que os outros não sabem mas ela entende pela sensibilidade. Muito ela já sofreu tentando ser igual até compreender a missão dos diferentes que têm por número de sorte o treze. Então continuava a abrir clareiras nesta estrada que tem a trilhar, deixando pra trás o que passou, de peito aberto ao que virá porque o sol há de brilhar mais uma vez e a luz há de chegar aos corações, Tereza.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

À UNHA

Eu sabia que uma hora isso iria acontecer, só não imaginava que fosse assim. Acho que dor é sinônimo de visceral e de mim, então não sei se sou eu mesma escrevendo agora. Em contrapartida posso garantir que nunca fui tão minha como hoje me sei e sinto. O amor que eu sentia por você tem um gosto de bem querer sem o desespero arfante de outrora. Me dou o luxo de nem beijar sua boca por opção minha - veja você como o mundo dá voltas - mas fico feliz em te reencontrar. E tenho o domínio de te convidar pra sair só pra te testar, sabendo que você não vai aceitar porque seu medo é dez vezes maior que a sua altura e você não muda. Eu desconfio de que você vai morrer assim, mister imutável, sabia? Posso até jurar, mas não é meu departamento. Cada um sabe de si e o que eu sei de você já é muito mais do que você próprio supõe conhecer. Estarei na sua vida e você estará na minha pra sempre. Sabemos que é sincero e inclassificável. Mas meu sentir é diferente da carne crua exposta, pelo menos dessa vez. Só não perdi essa mania de achar que muito do que eu escrevo está uma bosta. A ansiedade diminuiu horrores também, me deixando mais suave a maior parte do tempo. Muitas vezes tentei abrir teu peito pra arrancar à unha sentimentos encruados que não escapavam do meu faro. Ainda alguma coisa ficou daquela época. Confesso que hoje eu xereto as flores do meu quarto só pra abrir os botões de lírio quando julgo que a natureza está preguiçosa. Sei que não devia, mas eu agilizo o processo da florada. É desperdício o perfume da flor enclausurado.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

HISTÓRIAS DE TEREZA 12

Se há uma coisa que eu não merecia era te ver chorando pelo espelho do retrovisor. Pior de tudo é que você fica ainda mais bonita com os olhos reluzentes em lágrimas prestes a saltar pupila afora. São as ironias do destino, ainda mais quando especificamente eu falo do seu, um tanto quanto peculiar. Tô te encarando e dizendo: chora, minha amiga, que enquanto não botar pra fora, nada vai passar. Você tem a dignidade dos que choram a dor em silêncio. Os desatentos acham até que você está sorrindo do alto de sua vida mansa de princesa de cabelos dourados. Que sejam felizes na ignorância dos superficiais. Eu vejo você inteira, seu coração que vale por dois e seus olhos marejados que falam bem mais do que a boca cor de rosa. Não precisa me dizer nada que eu sei bem o que se passa aí dentro. Você luta dia a dia pra superar, independente do que o tempo possa fazer por você ou do que os vizinhos vão falar. É que às vezes não dá, você é humana e também guerreira, a emoção transborda da sua natureza profunda. Tem coisas que você nunca vai mudar, minha amiga, por mais que ame, lute, tente com todas as forças... sei que é muito difícil entender por quê os outros fazem escolhas erradas, mas preocupe-se em trilhar o seu caminho. A dor de quem se encontra é grande por isso há quem prefira não se procurar. Eu me orgulho tanto de você, que não desiste de si. Agora enxugue esse rosto e vamos dormir, que o amanhã é outro dia de sol pra ser feliz, Tereza.

sábado, 16 de julho de 2011

FARAÔNICA

Eu só queria te dizer que, finalmente, aquela dor já passou e que aquela mágoa foi levada pelas águas do reino de Iemanjá. Eu respiro tão melhor essa felicidade que eu quase não reconhecia em mim. Até posso falar com você e sorrir ao mesmo tempo, posso mesmo te tocar sem medo da minha reação porque o dia chegou sem que eu sentisse: compreendi que sempre seremos assim, seres que não podem estar. O foda é que eu sozinha posso ser quem eu quiser e com quem eu quiser, uma liberdade que você não tem. E pra isso eu posso te deixar paradinho aí mesmo onde você está, já que não há borracha que te apague (seria até uma injustiça, eu admito). Não, você não merece ser esquecido. A pirâmide é feita de trabalho árduo e pequenas pedras quando se olha de perto, então você é parte de mim. Renegar isso é que estava me custando os dois olhos da cara além de todo o alicerce da nossa obra faraônica e sinceramente, eu não preciso fazer isso com a gente. Porque eu sei também que aí dentro eu tenho o meu canto no teu peito, escondido feito um sarcófago. Na tua vida é o que dá pra ter, dentre silêncios, enigmas e múmias. Mas nesse jogo de decifra-me ou te devoro, em meio à tanta areia eu sei que sou um pequeno oásis de água fresca e cristalina no grande deserto que você atravessa, perambulando entre milagre, delírio e miragem quando me vê. Então eu não vou sumir, nem te procurar, nem te esquecer, nem ficar com você. Você é único, mas não é a única história que eu tenho pra contar. Quero viver a simplicidade de ser feliz agora.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

HISTÓRIAS DE TEREZA 11

Ela pensou em ir. Pensou duas vezes e então tomou a decisão certa, resolveu ficar. Agora usava a balança da razão para ponderar suas atitudes. Tudo o que pensava, falava ou fazia sempre passou pelo crivo do coração... só do coração. E o cérebro, que depois do colégio usava menos para equações matemáticas, cálculos de física, fórmulas químicas e mais para números de telefones e rostos de pessoas, teve que reaprender a pensar. Tudo uma questão de sobrevivência neste lugar chamado mundo real. De que adiantou cada gota de suor e lágrima colocada em investimentos emocionais, se invariavelmente ela estava no vermelho? As contas lhe renderam contos, nem de réis, nem de fadas, e isso é o que se pode chamar de lucro: suas histórias para contar, algumas que até Deus pode duvidar, mas ela não. Então, isso é o que importa, ela, tão e somente ela, com sua verdade. Ainda não era hora de ir encontrá-lo e quer saber? Jogou na mão do acaso o tal do o que tiver que ser, será. Porque o mundo dá voltas sim e enquanto ele girar, eu vou viver bem a minha vida, dizia para si mesma. Ainda haverá o dia, ainda haverá de dizer na cara dele, desculpe, mas eu me enganei quando eu disse que você era a coisa mais importante da minha vida. O dia não é agora, é um outro dia que virá respeitando o tempo do fruto que amadurece até cair do pé de laranjeira. Ela não tinha pressa de pegar atalhos e facilitar as coisas. Agora existia até um prazer no vazio do não. Optou por não encontrá-lo porque para ela era melhor assim neste momento. Aquela fúria em antecipar os passos e definir o sim ou não, toda a pressa de viver sem deixar pra depois e ir e gritar e amar... passou. A vida lhe ensinou que o silêncio também é uma grande coragem.

sábado, 18 de junho de 2011

ESPARADRAPADA

Sabe o que eu queria? Um remédio pra memória. Podia ser uma borracha pra apagar lembranças, boas, ruins e principalmente inesquecíveis. Ou uma pílula de todos os dias seguintes ao boa noite cinderela, assim eu acordava num mundo melhor. Alguém podia inventar o elixir do desapego ou uma pomada pra cicatrizes existenciais quando a gente tá naqueles dias de dor. Porque o que não tem remédio nem sempre remediado está. Pode estar esparadrapado, cheio de remendo, só tapando o buraco que é mais embaixo, da chaga que lateja do lado de dentro chamada decepção, esta doença que te deixa engessado em observação dos fatos, sem previsão de alta, a colecionar perguntas, lágrimas e dias acinzentados.

Mas que um dia... sem remédio, elixir, espadradrapo, gesso, soro nem porra nenhuma, você há de (se) superar. E eu também.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

AVESSO

Eu escrevo pra me curar. Minhas palavras são o grito mudo da dor quando não me sai pela boca só pelos dedos. Escrevo porque me falta o ar nas crises de sentimento asmático e eu necessito de oxigênio. É minha tentativa de explicar o que não me é possível compreender. Cada palavra é compaixão por mim mesma quando sinto profundo ódio por ser assim, do avesso. E também porque de nada eu tenho certeza. Se a vida me desse ao menos um mar, nem precisaria ser de rosas. Eu passaria dias a fio olhando pra ele e faria da areia minha lousa. Rabiscaria o que eu sinto com o dedo sempre que tivesse vontade. Devolveria minha água e meu sal sempre que quisesse chorar e estaria lindamente produzindo mar. Mas eu uso as palavras que são um alívio quando existir me cansa demais as pernas, então coloco por extenso ecos, buracos e feridas. Porque escrever é arrombar a porta quando não há saída, é poesia e teimosia que me fazem resistir pra contar minha história toda outra vez.

domingo, 1 de maio de 2011

HISTÓRIAS DE TEREZA 10

Eu tô procurando por você que não tinha medo de viver. Você que acreditava no amor acima de tudo e sempre viu o próximo como seu semelhante. Eu quero te encontrar e ouvir as histórias que você tem pra contar. Cadê as suas asas pra voar, menina? Eu não tô vendo mais flores no seu jardim e no seu cabelo. Acho que você pinta os lábios pra disfarçar a falta de brilho no olhar. E anda estudando demais porque é o único caminho seja lá onde isso for dar. Você que levava a esperança aos outros e achava que o show deve continuar. Não ouço mais sua voz pedindo bis. As luzes estão apagadas, o celular dá caixa postal, e agora? Você se mudou de casa e de bandeira, acho mesmo que você não está inteira. Será que você enlouqueceu, mulher? Eu ainda sou sua fã de carteirinha e queria ser você quando eu crescer. Essa liberdade exalando das suas palavras me faziam ter fé em ir além e querer mais. Até eu duvidava do que era capaz de viver mas você não fazia nada à toa. Vendo você eu me compreendia e me perdoava. Tô sentindo falta de sonhar, do seu jeito de olhar o mundo com ingenuidade, da generosidade de compartilhar sua vida. Como é que vai ser daqui pra frente, me diz? Eu respeito a descrença e o luto e o silêncio porque a dor cala, eu bem sei. Mas faço um apelo: você tem que continuar. Mude, mas não desista de si. E assim que você ler esta carta, faça o favor de me dizer onde está, Tereza.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

LIBERTA

E então chegou o grande dia de eu me decepcionar com você. Eu que tanto batalhei sozinha pra te esquecer, sem nunca deixar de te amar, tive essa ventura de você conseguir me decepcionar com apenas um mísero texto de duas linhas. Meia dúzia de palavras suas versus um livro inteiro de histórias que não irei mais contar. Acho incrível o poder da palavra, que escreve conto de fadas ou leva ao calor do inferno em vida com a mesma velocidade. Ler sua mensagem foi receber sorrindo um tiro à queima roupa. Fiquei com a bala atravessada na garganta e confesso, não doeu nada. Só senti meu pensamento escorrendo junto com meu sangue quente. Eu chorei poucas lágrimas porque não há revolta e em matéria de decepção eu já estou calejada. O que me doeu mais foi sentir que não vou mais sentir nada. Confesso que racionalmente eu sabia que só teria chance de perder o encantamento se um dia você me decepcionasse, porque tentei escapar de mil e uma formas, mas o amor venceu todas as minhas tentativas de fuga. E eu que tanto busquei, nem precisei sair de casa para ver a partida do sentimento mais lindo que eu já tive na vida. Até sonhei que você diria "estou com saudade e quero te ver", num lapso de ingenuidade, antes de compreender a verdade. Apesar de tudo, sei que não foi por mal, também tenho culpa por não te entender desde o princípio, por insistir nas igualdades dentro de tantas diferenças. Eu tenho certeza de que você confia demais em mim, porque não seria louco de propor o que me escreveu com aquela meia dúzia de palavras. É que finalmente sua atitude me abriu os olhos de um jeito que eu não esperava. Eu enxerguei o que em você está explícito, sua incapacidade de amar, porque você não ama ninguém, só ama o fato de ser amado por alguém. Eu pequei pelo excesso e você pela falta, essa é a moral da história. Agora eu entendi, com todas as letras, e seguir sem você é dizer adeus a mim mesma e recomeçar. Agradeço a você por tudo, principalmente pela decepção, porque mesmo com algumas lágrimas nos olhos hoje eu digo: estou liberta.

domingo, 17 de abril de 2011

MINHA AMIGA

Penso em mim e falo de você. Escrevo pra você baseada em mim. Eu me olho e vejo você refletida na imagem do espelho. Acontece aí e eu sinto aqui. Os fatos se repetem com os mesmos personagens que só mudam de nome, sotaque e aparência, mas não de essência. São eles sim, os mesmos de antes, aqueles de sempre. A gente quer é ficar em pé no cai-e-levanta da vida, mas o chão desaparece quando a gente tem certeza de que ele está lá, seguro como o firmamento. Será que a vida ensina e a gente não aprende? Eu não tenho essa resposta pra dar, nem pra mim, nem pra você. Não, essa resposta eu nunca terei. Estendo a mão porque quero te levantar, sei que você se machucou e isso dói em mim também. Faltam dedos nas mãos para as quedas do passado e há poucos nos pés para contar o que está por vir. Tô achando que a malandragem nem é ficar em pé, é aprender a cair sem se arrebentar toda, é fugir dessa maldita dor que dilacera mil vezes mais que a queda em si, é ter que dar bom dia com a ferida escancarada a céu aberto e ainda assim continuar. Porque sei que nossos passos seguem a ilusão de que da próxima vez vai ser diferente e a cabeça fixa nessa vontade louca de querer acreditar, porque sem acreditar a gente não sai do lugar. Então, assim a gente segue, minha amiga, com o pulsar do coração, acreditando na vida.
 
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